Adriano passou doze anos atrás do volante de uma ambulância, correndo pra chegar antes que fosse tarde.
Cinco meses atrás, voltando pra casa depois de um plantão de madrugada, quem precisou da ambulância foi ele.
Perdeu as duas pernas. Quem abriu a porta do carro pra tirar ele das ferragens foi o Jandir, parceiro dele de dez anos de plantão.
Desde aquela madrugada, não entra mais salário em casa. Sem as pernas, ele não dirige. A mãe vendeu o que tinha pra vender, a família se apertou onde deu, e o orçamento das próteses continua em cima da geladeira com o mesmo número que não muda.
E o corpo ele tem prazo.
A coxa só segura prótese enquanto ainda tem força. Cada mês sentado, ela afrouxa um pouco. Passado um tempo, não segura mais nenhuma prótese — e sentado vira pro resto da vida. Ele já tá no quinto mês.
Por isso treina todo dia, sem faltar um. O Jandir passa lá antes do plantão pra levar ele. O corpo tá respondendo. A parte que depende dele, ele tá fazendo.
A que falta é a que ele não alcança sozinho: duas próteses acima do joelho, que custam mais do que ele ganhou em anos dentro daquela ambulância.
Ele passou doze anos chegando a tempo por gente que nem sabia o nome dele. Nunca cobrou nada de volta.
O botão aqui embaixo é onde ainda dá pra chegar a tempo por ele.